quinta-feira, 22 de maio de 2014

Bon Voyage à St.Marie!


Vila Belga, patrimônio histórico. Foto: Secretaria do Turismo de Santa Maria/RS

As casinhas coloridas são muitas. Bem preservadas, elas dão um tom alegre ao cotidiano comum da cidade. Construída entre os anos de 1901 e 1903, a vila foi projetada pelo engenheiro Gustave Wauthier para ser a nova moradia dos funcionários da companhia belga "Compagnie Auxiliare des Chamins de Fer au Brésil". Como? Você leu "Brésil"? Sim! Não estou em algum vilarejo da América Central, muito menos a foto é de alguma cidadezinha europeia. Toda essa riqueza arquitetônica mora aqui ao lado, precisamente na cidade de Santa Maria, onde essa "Compagnie" adquiriu a concessão e finalizou a construção da Estrada de Ferro Porto Alegre-Uruguaiana, um projeto de articulação do território e das fronteiras do Estado do Rio Grande do Sul com a Argentina, Paraguai e Uruguai. Agora tente não se revoltar, caro leitor, ao saber que você poderia estar, sim, viajando todo o território do falido Mercosul, apenas de trem!


Encantada ao passear por essas ruazinhas, de imediato pensei em colocar no primeiro bloco do #Wanderlust #7 dessa quinta-feira, um guitarrista de jazz belga que conheci por causa do toca-discos bacana do meu amigo Márcio Grings, um santa-mariense da gema, que me levou para ver essa cidade de perto, berço da On The Rocks. Ouvi pela primeira vez, Django Reinhardt, um sujeito de alma cigana e que influenciou posteriormente músicos, criando o estilo gypsy jazz, um dos meus favoritos:

Django Reinhardt - The Best of Django Reinhardt




Entre um passeio a Silveira Martins, um pulo no balneário Novo Pinhal - uma bela surpresa, pois não imaginava que a cidade e seus arredores tivessem vários locais para banho, em cima das montanhas! - recordei da minha infância ao lembrar do gosto do meu pai por estar no meio do mato, acampando, e principalmente, da preferência dele pelos vinis de western do meu avô. Sendo assim, ouvi um dos discos mais bacanas do gênero, que mudou minha opinião a respeito. Pat Garrett & Billy The Kid, trilha sonora criada por Bob Dylan, para o filme de mesmo nome, lançado em 1973. Se eu já cantava desde a minha infância essa música na voz do Axl Rose, a original, pelo próprio Dylan, me arrebata:

Bob Dylan - Knockin' on Heaven's door




As audições de grandes vinis eram pausados por leituras de trechos de um livro, que há tempos eu queria muito já ter devorado. Todo bom mochileiro, aquele com espírito desbravador de verdade, tem esta obra, mesmo que sem querer, como uma de suas favoritas: Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer.




Já em em casa, no sítio em Gravataí, eu continuava a leitura, mas minha trilha sonora começava a fazer as malas e saía dos Estados Unidos rumo à Cuba, um dos lugares que certamente estão no meus próximos roteiros de viagem. Ouvia a parceria de Omara Portuondo, cantora de bolero e dançarina cubana e minha diva brasileira Maria Bethânia, que juntas em 2008, gravaram um disco lindo e saíram em turnê:


Omara Portuondo e Maria Bethânia - Tal Vez



E já que falamos de divas, peguei meu mapa sonoro e para continuar a leitura, eu aterrisei no México. Poucos artistas me comovem tanto. E uma dessas estrelas da vida se chama Chavela Vargas, diva dos anos 50 e amiga íntima de Frida Kahlo.



A expressividade dessa mulher, intensidade e modo choroso de cantar, sempre fazem com que eu termine a audição da faixa com lágrimas rolando. Depois de ter problemas com álcool, Chavela volta a cena musical em 1992, por intermédio do meu cineasta favorito, o espanhol Pedro Almodóvar. Ela faleceu em 2012.

Chavella Vargas - En el ultimo trago



Aí, vou até a casa de um amigo querido e ele diz: "Amanhã embarco! Vou à Paraty, para mais um Bourbon Festival"! Tudo o que eu queria era curtir aquela cidadezinha histórica, tendo como trilha sonora das minhas andanças, o jazz que ecoará por todas suas esquinas. Fotógrafo por hobby, Hamilton Fialho mandará retratos na próxima semana para o site da On The Rocks e contará como foi a aventura de mais uma reunião de jazzistas do mundo! O mais divertido sempre são os nomes desconhecidos e a maneira surpreendente que esses artistas "anônimos" te pegam de modo despretensioso! Se há viagem mais saborosa, e ao mesmo tempo, difícil de traçar um roteiro linear e racional, não tenha dúvidas, caro leitor: é a viagem musical, seja ela em Santa Maria, New Orleans, Bélgica, Cuba ou Paraty!

Dois dos artistas incríveis, que estarão na edição do Bourbon Festival, que começa nesta sexta-feira e vai até domingo, em Paraty. Salve para Hermeto Pascoal, nessa canção com a eternamente estupenda, Elis Regina!

Hermeto Pascoal e Elis Regina - Asa Branca



Preservation Jazz Band - Tailgate Ramble


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Take it easy, my brother...


Momento de louvor da qawwaali, uma crença corrente do Islamismo. Foto: Rasha Yousif


De forma mística, introspectiva, silenciosa. PARAR, ainda que por míseros minutos, é VITAL. Pegar carona na brisa que toca as árvores, perceber a dança do vento que arrasa e encosta gelado nas pálpebras. Apreciar uma leitura sem hora para virar a última página, entoar um canto com toda a devoção, se deixando levar pela batida de tambores, erguer as pernas numa rede, sentindo o sol entre rápidas nuvens. As voltas do cotidiano nos fazem perder esses momentos que nos são tão caros. Nos imbuímos de preocupações que anulam nossos sentidos, e deixam de lado a verdadeira beleza do mundo gigante, o real. Por isso, com filosofia "mente quieta, espinha ereta e coração tranquilo", o Wanderlust #6 traçou um roteiro sonoro de viagem nessa quinta-feira na On The Rocks, com a intenção de reduzir a sua velocidade, querido leitor.

Há tempos eu escutei o nome de Jeff Buckley. Porém, funciona como livros que param em nossos braços e não colocamos atenção, por estarmos em momentos diferentes. Você dirá: "Ouça isso, pois é genial!". Vou lá, escuto meia dúzia de faixas. Ou me apaixono, ou simplesmente deixo de lado. Anos após, vem a descoberta, quase atônita. "Como eu não tinha escutado isso antes?" E a razão é facilmente compreendida: aquele não era o MEU tempo certo. Sendo assim, o impacto provocado pelo álbum Grace (1994), alçou a obra como minha favorita. Isoladamente, nunca tive ninguém nesse posto por entender a música como a forma mais bela e ampla de uma manifestação artística. Mas quando um disco dialoga com a sua vida, realmente, o buraco é BEM mais embaixo.

Jeff Buckley - Grace


Sem pensar na profundidade das letras, há coisas no cantor, compositor e guitarrista norte-americano, que trago na minha bagagem musical desde a infância, quando peguei um violão e, desesperadamente, queria aprender Stairway To Heaven, do Led e Paranoid Android, do Radiohead. O próprio Robert Plant rasgou elogios à Buckley. Entendo: ambos tinham apreciação por fraseados e arranjos em timbres orientais, vide Last Goodbye, de Grace. Posteriormente, o jeito espontâneo, quase torto de cantar e tocar de Buckley, imprimiu traços nas características "on stage" de Thom Yorke e Chris Martin, do 
Coldplay. Mesmo tendo ficado arrasada ao saber que morreu afogado em 1997, ao nadar em afluente do rio Mississipi, antes de ir para um ensaio com a banda, é perceptível que a história de alguns mestres da música tem de ser assim, para que imortalizem suas próprias histórias de vida, nas nossas.

Jeff Buckley - Last Goodbye


Descobri ainda, que Buckley estava perplexo com o talento de Nusrat Fateh Ali Khan, músico paquistanês, que ele por acaso ouviu entoando cânticos, ao lado do quarto onde estava no Harlem, 1990. Listado em 2006 pela revista Time como um dos "Heróis da Ásia", Nusrat era mestre em qawaali, um estilo musical Sufi, corrente do Islamismo, principalmente em Punjab e Sindh, regiões do Paquistão, Hyderabad e Delhi, na Índia, que utiliza cânticos e danças, o que é considerado ilegal por muitos muçulmanos. Buckley ficou extasiado:

"The phrase burst into a climax somewhere, with Nusrat's upper register painting a melody that made my heart long to fly. The piece went on for fifteen minutes. I ate my heart out. (...) At times I've seen him in such a trance while singing that I am sure that the world does not exist for him any longer. The effect it has is gorgeous. These men do not play music, they are music itself".


Nusrat Fathe Ali Khan - Allah  Hoo


Bem mais perto, por esses continentes do lado de cá, outros cantos tiveram sobre mim, um efeito parecido. O álbum Music for The Native Americans, produzido pelo guitarrista e compositor canadense Robbie Robertson foi feito para o documentário de TV americana, que rodou em 1994, chamado The Native Americans. O filme explora a história dos índios nas Américas, bem como suas culturas, na qual a cada uma hora, das seis do documentário, mostra uma região particular dos Estados Unidos.



Impossível seria, ao falar em índios, não relembrar as minhas raízes, assim como a de milhares de brasileiros. Embora não tenha guardado o retrato da minha bisavó paterna, por parte de minha avó, bastou eu ver a imagem em preto e branco daquela índia de cara bem quadrada, retirada no interior de Bagé, para nunca mais me esquecer de onde eu vim. Próximo a minha realidade, não conheço exemplo maior de povo que sabe não só apreciar, mas que compreende o papel fundamental da natureza e sua contemplação nas nossas vidas. Por isso, rodei o som extraído do álbum Memória Viva Guarani (2000) gravado com 300 crianças de tribos guarani e tupi-guarani do Rio de Janeiro e São Paulo. No canto, que significa "Nossos pais são o vento e o trovão", as crianças evocam "o espírito ancestral em cada um de nós e, deixando claro a importância dos cânticos em cada situação de nossa existência".

Ñande Reko Arandu ''Memória Viva Guarani'' - Oreru nhamandú tupã oreru

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Sobre Polska, Rei dos Ciganos, garotas suecas e Coroa do Sul



Myslovitz e novo vocal Michał Kowalonek (segundo da dir. para esq.). Divulgação.

No programa #5 do Wanderlust, que vai ar todas as quintas-feiras na On The Rocks, voltei no tempo e lembrei a primeira vez que ouvi uma frase - ao vivo e a cores - em polonês. Eu segurava um bebê de sete meses no colo e assistia Frau Wichert atender o telefone, entre uma passada de pano no balcão e uma varrida de deixar chão lustroso! Enquanto eu trabalhava como babá, em um programa de intercâmbio chamado Au Pair, ela era responsável pela faxina da casa do casal de alemães que me acolheu. A pronúncia era forte, articulada, e embora eu me esforçasse, não conseguia associar com alguma palavra do meu bom e velho português. Bastou para aguçar a curiosa aqui! Pesquisando sons, com a força do meu amigo mochileiro de primeira Lie Pablo, eu descobri a Myslovitz.

A banda de rock polaca me conquistou justamente por não cantar em inglês, e sim, em polonês no duro, no osso! Desde 1992, o grupo liderado pela voz clara do guitarrista Artur Kojek, nunca mais saiu do meu CD player! Anos depois, já por terras brazucas e em tempos de Orkut, eu encontro uma comunidade chamada Myslovitz Brasil. Aí,não parei mais de ouvir, mesmo! Com a saída de Kojek, quem assumiu a ponta foi Michał Kowalonek, que Não deixou a desejar e mete bala no disco novo:

Myslovitz - Telefon



Próximo à região da querida Polônia, descubro um cantor nascido na Sérvia, chamado carinhosamente como "rei dos Roms", ou melhor, "Rei dos Ciganos". Me refiro a Šaban Bajramović, um cara que viveu boa parte da sua vida nas ruas, não continuou os estudos e quando tinha 19 anos desertou o serviço militar por amor à uma garota. Ao ser encontrado foi mandado para a prisão. Lá, começou a tocar numa banda. Sim, dentro da cadeia! 


Depois de deixar o presídio Goli otok, Šaban começa a carreira. Grava o primeiro disco em 64 e teve reconhecimento ímpar, por chefes de estado e personalidades, que o idolatravam (inclua Indira Gandhi)! Šaban faleceu em 2008, com funeral digno de rei. Além desse talento musical todo, o Rei é baita estilo, não é?

Šaban Bajramović - Avaj, avaj mo cavo



Da Sérvia pulei para Suécia, que dá um show no quesito cenário musical, para todos os estilos e gostos. Mas ainda devo dizer que o indie rock é um universo paralelo, com vários projetos surgindo, como água brotando da fonte! Impressionante! O trabalho da jornalista e cantora Anika Norlin conheci através de um amigo alemão, o Vincet Jetset, vocalista da The Stories. Em 2007 ela lança um trabalho com o nome Säkert!, que significa "Ok, certo!", mas também "Seguro" e foi indicada a Grammis,por melhor artista pop feminina e melhor canção. Não tem como não cair nas graças de desse embalo todo, e ao mesmo tempo tão simples, espontâneo:

Säkert! - Dansa Fastän



Falando sobre garotas suecas - as loucas - eu não poderia deixar a Linda Carlsson, que atende pelo nome Miss Li, de fora! É fácil fácil ouvir os sons da moça como  usados como jingles de grandes marcas, leia-se Apple e os seriados de TV, Grey's Anatomy e Desperate Housewives. Esse climão retrô e a voz com timbre bastante peculiar, repleta de personalidade, dispensa apresentações:

Miss Li - My Heart Goes Boom



Depois da trip pela Suécia, já embarcando para o Brasil, me deparo no Sul do país com bandas parceiras, que compõem o selo colaborativo The Southern Crown. Diante do cenário cada vez mais enrijecido e sem abertura, no que diz respeito a toda a máquina que envolve o mercado musical sulista, do músico ao vendedor, esses moços, de tanto se encontrarem em festivais pelo Rio Grande do Sul, resolveram dar as mãos. O selo independente abraça as bandas FRIDA, OS Vespas, Rocartê, Dr. Hank, Mar de Marte e Cattarse. Primeiro, um fazia show na cidade do outro. Agora são prestações de serviços, como pré-produção, mixagem, masterização, contatos no Exterior! A beleza desse trabalho conjunto avança para a região Centro Sul do país:

FRIDA - Conversas Intermináveis





Os Vespas -  Precioso Presente




Rocartê - Pensar em ti




Dr. Hank - Happy Day 4 You




Mar de Marte - Lacobo




Cattarse - Entre os Dentes

quinta-feira, 1 de maio de 2014

FRIO. FRÍO. FROID. COLD. ERKÄLTUNG. холодный

Divulgação - Portugal, The Man

Acaso.


Não existe palavra mais justa para definir como se chega até uma nova música, mesmo que você esteja certo do que procura. Quando não tenho referências, ou simplesmente não conheço pessoalmente o lugar, penso imediatamente num roteiro de viagem, lugares que eu gostaria de conhecer e desbravar. Assim, inicio a minha caça por diferentes cenários e gêneros musicais locais.O projeto Wanderlust na On The Rocks chegou na minha vida para colocar num dos meus hobbies, data e hora marcada - porque esse trabalho está mais para diversão, né? Ô, coisa boa!

Na busca por novas canções é mais fácil irmos atrás de paisagens, idiomas e culturas com so quais já estamos familiarizados, como o espanhol, francês, inglês. No meu caso, funciona de forma contrária. Quanto mais esquisita a cidade, mais ela me instiga pela sua mistura de dialetos, sons, instrumentos e timbres. 

Em 1998, eu ouvi pela primeira vez uma cantora islandesa. Com olhos puxados e com uma voz bastante peculiar, eu me encantava por Björk. Escutei bastante o álbum Homogenic de 1997, depois veio Vespertine, Medula. Embora, muitos a entendem como uma figura maluca e complexa, eu sempre vi o retrato da arte como um todo, musical, visual, nos modos mais bonitos e amplos que uma expressão artística pode ter.

De lá para cá, muita coisa já ouvi, mas um grupo do Alasca eu destacaria nesse humilde post pós-programa. Me refiro ao PORTUGAL,THE MAN. A abertura do Wanderlust dessa quinta foi com esses meninos que vem de Wasilla, no Alasca, que até 2012, tinha 8.456 habitantes. Embora tenham assinado com a Atlantic Records em 2010, o grupo existe desde 2004. O bacana é que nas letras dos sons, eles gostam de frisar claramente a opinião sincera, nua e crua, sobre temas do cotidiano, sem florzinhas. O som que toquei hoje se chama Sleep Forever, uma beleza de imagem, de mensagem, de poesia:

"I just want to sleep forever
Never see tomorrow
Or lead or follow
I don't want to work forever
Know what I know
Or beg or borrow

Just like our mothers
Who gave us our homes
We'll be just like our fathers
And go out on their own
'Cause we are the colors
Of all that you see
We'll be just like our brothers
And take to the streets..."





Em entrevista para a Rolling Stone Brasil no mês passado, o baixista Zachary Carothers contou que o grupo estava muito contente em vir pela primeira vez para a América do Sul e participar da edição brasileira do Lollapalooza. Você sabe que muitas vezes, a imprensa coloca rótulos em muitas coisas, pois assim fica mais fácil de passar a informação adiante, tipo telefone sem fio, sabe? Nessa vibe de afirmar que os caras tem veia política, Zachary disse que não são mensageiros de nada, apenas colocam para as pessoas o que sentem. Mas o mais bacana foi sobre ter crescido no Alasca:


"Não tivemos muita influência externa de ninguém crescendo lá. Por isso nos sentimos tão sortudos de fazer isso, nunca achei que fosse viajar tanto assim. Não somos daquelas bandas que ficam enfurnadas do hotel, chegamos mais cedo, passeamos e vemos coisas, conhecemos pessoas".

A velha prática do wanderlust. 

Funciona. 

Inspira.
#

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Joyeux anniversaire à Paris!


Cidade Luz, final de semana do meu aniversário.
"Pegar o trem às 6h30 da manhã na estação principal de Munique. Encontrar a Thalita na estação. Tirar dinheiro. Comprar uma água e um breze para não ter que gastar no bar do trem. Correr com a mochila para entrar no vagão certo. Não sentar no assento certo, porque um senhor já lê o jornal bem acomodado no teu suposto lugar. Sentamos em lugares que não eram nossos. O trem sai pontualmente. Comer o breze cheio de manteiga. Sujar os dedos, beber água. Ver o  dia amanhecer, nublado, na Alemanha. Cinco horas de viagem até Paris. O sol nascendo após passar por Stuttgart. Campos dos dois lados. Mais campos. Que tal abrir duas mini-garrafas de champanhe? Brinde. Gargalo com gosto da tampa de plástico. Cheiro de tampa de plástico. Bebemos até o fim. Puxei a mesinha, refiz as unhas. Cheiro de esmalte, sem borrar. Passageiros do trem descem, não se escuta mais alemão. Passageiros novos entram, não entendemos nada em francês. O sol brilha ainda mais. Nos aproximamos da região metropolitana de Paris. O trem chega na sua plataforma. Thalita manda mensagem para Jean-Edouard. Vamos ficar na casa do primo francês da nossa amiga querida, brasileira-francesa Marianne. Se ele não for legal? Ele já saiu do trabalho. 13h. Ele pergunta se já comemos. Ainda não. Nos espera com uma pizza. Mas se ele for chato, como vamos comer uma pizza, e na casa dele? Fizemos baldeação em dois metrôs. Os veículos são velhos, parecem pifar ao arrancar. Atrolho de pessoas. Fila para entrar e sair do vagão. Entrada e saída de estação não tem escada rolante. Thalita levou mala de rodinhas. Pagou pecados carregando a mala no braço, e eu a mochila, nas costas. Próxima parada Guy Môquet. O nome da estação onde fica o apê do Jean é de um jovem comunista francês que foi preso, durante a ocupação alemã na França, durante a Segunda Guerra. São umas quatro quadras até a casa do Jean. Chegamos ao apartamento. Havia um elevador minúsculo apenas para colocar coisas. Thalita decide colocar a mala ali dentro. Subimos as escadas e nada do elevador. Eu a espero em frente ao apê do moço. Ela desce e decide vir dentro do elevador com a mala. Campainha. Jean sorri. Cheiro de narguilé por toda a casa. Um gato fofo em cima do ar-condicionado. O vaso sanitário fica em outra porta, separado do banheiro. No quarto de hóspedes, uma mesa de bilhar. Jean é fanático por Mario Bros. Tem o Nitendo e jogos raros. Um querido. Fez mapa dos lugares que ele mais gosta porque insistimos. Era sexta de tarde.



Saímos desbravando o bairro. Algumas quadras e estávamos em Montmartre. Pegamos uma rua. Rua errada. Olhamos no mapa, subimos um grande lomba. Placa: Sacré Couer. Chegamos em cima do morro, onde fica a igreja e praça com a vista clássica de toda a cidade. Uma volta por dentro da igreja. Obrigada, anjos, chegamos. Descemos as escadarias, africanos nos atacam querendo amarrar pulseirinhas da sorte nos nossos pulsos. Uma caminhada pela  Boulevard Clichy. Sexy shops para os dois lados. De repente Moulin Rouge. De volta a sex shops. Entramos, olhamos. Não experimentamos. Que caro esse espartilho. Deixa pra lá. De repente 17h30. Temos que voltar, exposição de fotografia logo mais. Saímos às 18h30 para ver as polaroids do Bertrand, outro primo da Mari. O bar parece uma sala de estar dos anos 60. Vinho, comidinhas. Antiguidades, quadros, livros e mais polaroids com o cotidiano de Paris. Os queridos canadenses Aron e Gene. Se juntam franceses curiosos. O que fazem em Paris? Oi, não entendi. Um motivo para estar em Paris? Franceses curiosos. Agora franceses, canadenses, chineses, holandeses. Fim da exposição. Fome. Todos juntos por Quartier Latin. Todos procuram um restaurante. Finalmente, um. Bouef Bourguignon, vinho. Risadas. Vinho. Vinho. Cansaço. 0h, cama.

Sábado, 10h. Rua. Champs Elysees, à pé. Ponte Alexandre III, lembrança do cenário do fim de "Meia Noite em Paris".Jardim do Museu des Invalides. Frente do Louvre, Ponte dos Cadeados. Os pés começam a doer.Pausa para um café. Uma visita até a igreja de Saint- Etienne. Jardim de Luxemburgo, faltando 5 minutos para fechar. Thalita para em uma casa de queijos. Souvenir. No caminho, uma árvore gigantesca com livros pendurados. Reserva no restaurante Julien logo mais. Maureen, minha querida amiga francesa liga. Vou junto. Vamos virar o teu aniversário. Banho rápido, troca de figurino. Chiques. Próxima parada estação Strasbourg St. Dennis. Esperamos Maureen na saída da estação. Desencontro. Ligações. Ela está na outra saída. Vamos para a outra, não a vemos. Ela foi para a qual estávamos. Finalmente, o encontro. Alegria, carinho. Reserva para três, por favor. Sopa de cebolas, risoto de scallops com queijo parmesão, creme brulé. Tradicional, eu disse. A sobremesa veio com vela. Cantamos parabéns. 31 anos. O que fazer depois? É meu aniversário, temos que comemorar. Meu amigo mora aqui perto e faz uma festa no apartamento, não precisa levar nada, vamos? - disse Maureen. Claro! Bebemos duas garrafas de vinho. A rua está repleta de prostitutas. Maureen esquece o código da portaria do apartamento.  Pergunta a uma prostituta próximo à porta. Não se preocupe, eu abro pra você. Meu apartamento é aí dentro. Subimos até o terceiro piso. Uma sala minúscula, uma luz vermelha, música alta e um 12 franceses animados! Bebidas com morango, limão. Dancei Gustavo Lima, bêbada. A campainha toca. A música baixa.

- Quem é o responsável pelo aparamento? Eu, senhor. - Quero ver seus documentos. Temos que parar coma festa. Os vizinhos reclamaram do barulho. Outro diz:  não tem problema, vamos para o meu apartamento no primeiro piso. Entramos. Tiramos casacos, mantas, gorros.  A festa recomeça. Em 5 minutos, a campainha toca. - Quem é o responsável pelo apartamento? Eu, senhor.- Quero ver seus documentos. Acho melhor pegarmos os casacos e fazermos festa em outro lugar! Você está certa, Maureen. Como é que você dizia gay em português? Bai... ba... bai... Ah! Baitola? Isso, baitola! E como era puta? Putain! Isso, puitan! Hey, Thalita, você tá filmando? Estamos bêbadas, no meio da rua, dizendo essas coisas! Táxi, táxi! Nos leve para o Globo, por favor! Ah, tem fila na danceteria! Entramos na fila. Bêbadas. Banheiro. Não tem. Não aguento. Já sei, continua Maureen, vou arranjar uma festa que uma amiga minha está organizando. Não vamos ficar em fila, apenas entrar. Alô, alô! Hum... Ok! Estamos indo! Táxi, táxi! Para Champs Elysées, por favor. Danceteria chique. Sem fila. Sem ingresso. Dose do redbull com vodka = 17 Euros. Chão, chão, chão. 4h da manhã. Vamos embora? Quem falou o endereço para o taxista?

Um expresso. Café ao meio dia. Cura tudo. Macarons na Ladurée. De volta a 1862. De volta a 2014. Eu, com 31 anos e 200 euros no bolso. Um sorriso nas orelhas. Amizades para a vida. Meu aniversário, eu preciso ver a Torre Eiffel. Falta a cereja do bolo. Arrastando mala e mochilas pegamos o metrô. Entre nuvens, o sol vinha e iluminava a estrutura que ficou feito foto, registrada na minha cabeça. Romantismo. Charme. Clássico. Do pé da Torre fomos almoçar. Croque Madame, eleito o prato cara de Paris. Saliva. Cheiro. Abraços de despedida. Mais uma foto. Até mais minha amiga, Maureen. Não podemos nos atrasar. Metrô arranca com um barulho. Vai pifar. Não. Chegamos até a estação. Corre, é o último vagão! Sono, cinco horas. 23h  chegamos em Munique. Pegar o trem ainda para casa. 20 minutos até minha cama. Feliz cansaço, feliz sono".




quinta-feira, 17 de abril de 2014

#Wanderlust


A vista dos Alpes. Foto Jouri Jalving


O ditado tão escutado durante a faculdade de Comunicação é válido e procede: "Rádio é uma cachaça. A gente faz uma vez e vicia para sempre". Uma vez compartilhada a rotina, a dinâmica, a quase imediata resposta do ouvinte, não há como não se apegar, não gostar de uma latinha. Por isso, em qualquer lugar do mundo, o Rádio nunca me deixou. Ainda em Munique tive a felicidade de conhecer o trabalho de uma Web Radio que despertou minha atenção, pela qualidade em sua proposta, a On The Rocks.

Em um papo descontraído via Skype, o jornalista Márcio Grings, colega competentíssimo, o qual eu conhecia o trabalho nos tempos de Rádio Gaúcha, me falou mais sobre o projeto que ele tomava frente. Não pensei duas vezes em me tornar uma colaboradora. afinal há muito tempo um dos meus hobbys é procurar bandas pelo mundo, não só para ouvir as peculiaridades de diferentes músicas, mas principalmente, conhecer a beleza da sonoridade de outros idiomas. 

Foi assim que surgiu #Wanderlust, um programa que une as duas das coisas que mais amo fazer: comunicar e viajar! E vamos direto ao assunto: no programa desta quinta-feira, véspera de feriado, decidi fazer um tracklist misturando sons que conheci morando em Munique, seja assistindo ao show, ou pela clássica frase de um amigo: "quero te mostrar uma coisa, tu já ouviste isso"? Sendo assim, assistia o show dos norte-americanos Gregory Porter e Lizz Wright no Circus Krone. Ele, vencedor do Grammy de melhor cantor de jazz:




Numa outra ocasião, meu amigo Vincent Jetset, vocalista do The Stories, banda que eu já toquei no primeiro #Wanderlust, na semana passada, me apresentou outro grande cantor, compositor e instrumentista norte-americano, Chuck Ragan:



Outra grande descoberta foi Jamiel Lidell, cantor britânico com a alma no soul. Mas ele consegue ser realmente incrível criando sons apenas com sua voz em um microfone, gravar também melodia e percussão com pedais de looping. Porém, nessa versão de Multiply, que eu adoro, ele chama o super pianista Gonzo, o multi-instrumentista Mocky e a cantora Feist para um participação em um show, que mais parece aquelas reuniões com os amigos na garagem de casa:




Loguinho, a gente disponibiliza o podcast do programa! Clica em On The Rocks e te diverte! Mande tua sugestão de roteiro sonoro de viagem, quais lugares tu mais gosta e me conta qual será tua próxima viagem, teus planos!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

De volta, e em casa!


Sugestão de som para a leitura das próximas linhas: Take the long way home, do Supertramp.

Porto Alegre, a casa, mesmo que passageira.

Jardim Lutzenberger, Casa de Cultura Mário Quintana
Sou daquelas que precisa da "Dona Inspiração" para quaisquer movimentos. E essa tal, há alguns meses, me abandonou por diferentes razões. Mesmo vivendo diariamente experiências diversas e interessantes em um outro país, algumas situações do cotidiano ocuparam um lugar mais importante naquele momento, do que as descobertas e novidades. Senti tristeza, saudade. Foram dúvidas, medos, ansiedade. Solidão. As preocupações de quem está numa terra estrangeira nunca nos deixam. Até poderia ter compartilhado os obstáculos, porém há vida - ainda bem! - fora das redes sociais, e não há coisa melhor do que o silêncio, debaixo de cobertas e com um livro. Foi assim que abri essa lacuna no blog, mas que hoje, ela se fecha.

Xangri-lá, litoral gaúcho ao entardecer.


Ainda que, de modo não definitivo, a possibilidade de voltar para casa não foi um desses motivos que me fez parar de escrever. Ao contrário! Em março, olhei Porto Alegre pela janela do avião com olhos de quem chega numa nova cidade, esperando para ser desbravada, com esperança. Numa primeira oportunidade, instintivamente, perambulei pelas ruas do centro da Capital. De uma forma natural, me levei pelas paisagens, que não perdem em nada para ares de Paris, Viena ou Munique. Elas são, sim, ainda mais especiais, por carregarem nos seus cantos, a minha história. E mesmo que não tivessem o meu a passado a favor, não há como negar tamanha beleza das árvores da Praça da Alfândega, da torre com relógio do Memorial do Rio Grande do Sul, a beleza do antigo Hotel Majestic, num quase rosa, contrastando com o céu azul, sem nuvens e a orla do Guaíba, com a minha gente transitando. Escutei grandes artistas, músicos de rua, com tamanha simplicidade e brutal virtuosismo no jazz, na Esquina Democrática. As cores das bancas do próprio Mercado Público e os seus cheiros de frutas, de temperos, de bacalhau!


Família Brand, um carinho sempre comigo, em Munique
Saudosismo de quem já estava um ano fora? Em parte. No entanto, só se entende o melhor e o pior do nosso lugar, quando permitimos nos distanciar, mesmo que não seja em um outro continente. Apenas sair, se dar um tempo, observar do lado de fora, o que temos, como somos e para onde queremos ir. A cada retorno, eu me dou conta que o céu azul e o relógio da torre do Memorial sempre foram os mesmos. Eu fui a mudança. E chego em casa com a mochila reabastecida de ideias e com uma foto clara do meu país, de tudo o que ele tem de belo, mas também de ruim. E esse retrato, eu só o construí por causa de novos amigos, estrangeiros e brasileiros - aos quais sou eternamente grata à vida por ter os encontrado - e por causa de novas paisagens, ao me lançar ao desafio. 


Por ter vontade de continuar a dividir histórias, mas principalmente por querer ouvir as de outras pessoas, é que, além desse blog, compartilharei a partir desta quinta-feira, às 20h, todas as peripécias e músicas que descobri nas minhas idas e vindas por aí, na On The Rocks. Sabe aquela rádio online, com sons que se sonha escutar dentro de um trem, em casa, ou dirigindo rumo à praia? Isso, ela existe! Hoje à noite, a minha rota de viagem será: Brasil - Portugal - Alemanha. Vamos ouvir o melhor da música alemã, incluindo trabalhos incríveis de amigos que Munique me deu. Para os que já quiserem ouvir em primeira mão os sons de logo mais, já está no ar o tracklisting

Se não clicou no link On The Rocks aí em cima, clica aqui para ouvir a rádio e o programa:  http://ontherockswebradio.com/


Marienplatz, o cartão postal no coração de Munique
Numa noite linda, eu passo pela Marienplatz, a principal praça da cidade e me deparo com o Konnexion Balkon, tocando embaixo de uma marquise. Músicos virtuosos de diferentes partes do mundo, que dedicaram suas vidas a estudar em conservatórios e hoje impressionam a todos pelas ruas da cidade. Tocarei o Le Café Bleu Internacional, um power trio instrumental, que tem na bateria meu amigo Jay Lateef e há pouco assinou com o selo Enja Records, o primeiro disco em homenagem a obra de Edith Piaf. Ainda, o baixista brasileiro e professor de música na Universidade de Munique, Paulo Cardoso e o rock contagiante do The Stories, que tem no vocal o meu amigo Vincent Jetset.


Histórias, aventuras e a vontade de se jogar no mundo, seja por 15 dias ou mais de um ano, todos temos. Minha mochila chegou em Porto Alegre reabastecida de coisas para contar. Hora de esvaziá-la para poder enchê-la novamente com novas histórias! Enquanto isso continuarei a me mover e a trazer minha inspiração de volta. Isso é sinal de que há sempre fé na vida aventureira. 

Continuemos na estrada.